quinta-feira, 22 de outubro de 2009

AVENTUREIRO

Porque fui aventureiro
Trago em mim esta audácia
Porque fui quase um herói
Trago em mim esta bravura
Porque fui tão destemido
Trago em mim a valentia
Porque fui um tanto atento
Trago em mim alguma astúcia

Porque fui demais ao longe
tenho o corpo dolorido
Porque fui onde eu queria
Tenho a alma tão liberta
Porque fui um dia errante
Tenho em mim esta ferida
Porque fui por tanta estrada
Tenho a cor de viajante

Porque fui um sonhador
Trago minhas esperanças
Porque fui sempre menino
Trago em mim esta alegria
Porque fui quase poeta
Trago versos rascunhados
Porque fui sempre de festa
Trago em mim esta euforia

Porque fui por ti beijado
Tenho os lábios indefesos
Porque fui enfeitiçado
Tenho menos a razão
Porque fui ao teu encontro
Tenho a pele arranhada
Porque fui o teu amante
Tenho a vida em tua mão

sábado, 19 de setembro de 2009

O DIÁRIO


- Vamos sentar aqui mesmo. Lá dentro tá muito cheio. Ô Severino, traz uma ampola e dois copos urgente pra nós. E aí meu amigo, conta o que te aflige.

- Eu descobri, Carlos. Eu descobri tudo.

- Tudo o quê, meu amigo. Pode contar que eu tô aqui pra te ouvir.

- É a Andrea, cara. A Andrea.

- Porra, Sevé! Não tem Brahma não? Tu não sabe que eu não bebo essas merdas? Traz logo que a situação aqui está periclitante. Rápido Sevé, que o homem tem um troço! E aí? É traição? Tu pegou ela com alguém?

- Não, pior...

- Caraca! Aqui, bebe de uma vez que você vai se sentir melhor. À nossa. Sevé, um queijinho e azeitonas, por favor. E então, o que aconteceu? Pior que traição? O que foi?

- Carlinhos..., a Andrea tem um diário.

- Diário? E o que tem de mais nisso? Porra, tô crente que o caso é sério. Ô Sevé, suspende o queijo, traz só a azeitona.

- Cara, a Andrea - tem - um - diário. Você não está entendendo?

- Não, claro que não. Mas vou ficar feliz se você me explicar o motivo pelo qual eu tive que sair da agência mais cedo por causa da porra de um diário.

- Hoje ela acordou mais tarde, saiu apressada e esqueceu a pasta; daí quando foi mais ou menos umas dez horas ela me liga me pedindo um número de telefone que estava na última página da agenda dela. Foi aí que eu vi, do lado da agenda, com esses cadeadinhos pequenininhos e tudo mais, escrito bem grande na capa. Diário.

- Já sei, tu abriu e descobriu a traição?

- Não, eu não abri.

- O quê!? Tu não abriu a porra do diário? Ah, mas tu só pode tá de sacanagem.

- Não, cara. Tinha o cadeado. E mesmo assim, acho que não é certo, não é?

- Não, se o caso for de traição, não tem problema, pode abrir sim. Você acha que ela está te traindo?

- Não! Quer dizer, agora eu já não sei mais.

- Por quê? Por causa do diário?

- É.

- Ah, fala sério. Ô Severino! Traz outra, rápido por favor, que eu que estou tendo um troço agora.

- Carlinhos, você não tá percebendo? Teu amigo tá na merda. A casa caiu. Não tem mais jeito. Por que ela teria um diário? Pra  que mulher precisa de diário? Pra colocar segredo. Só pode ser.

- Então abre essa merda. Tá com ele aí?

- Não. Deixei lá na pasta.

- Puta – queo – pariu. Sevé, traz mais uma e o queijo que essa merda vai se estender.

- Carlão, ali deve ter um monte de devaneios delirantes, sei lá, sonhos frustados, fantasias proibidas. Porra, minha mulher tem fantasias, Carlão; caralho!

- Calma homem, bebe aí a cerveja. Você tem sentido ela pensativa, sozinha num canto, infeliz?

- Não! Quer dizer, até agora não. Mas depois que eu vi esse diário... Às vezes acho que ela tá longe, com o pensamento distante.

- Ô Mané! Mulher tá sempre com o pensamento distante. Por isso é que é mulher. Se tivesse com o pensamento no aqui e agora era homem. Preciso te explicar tudo?

- E se tiver falando de outros homens? E se for alguém do escritório?

- Ela tem chegado mais tarde em casa? Tem gente ligando? Tu tá desconfiado de alguém?

- Não! Quer dizer, agora já não sei mais.

- Meu Deus do céu. Tudo isso por causa de um diário?

- E se tiver falando de mim? Se tiver falando da nossa vida sexual? Será que ela não tá satisfeita?

- Por que? Ela tem reclamado? Tu tem deixado a desejar, cumpadi?

- Não! Quer dizer, agora já não sei mais. Que merda! Tava tudo indo tão bem. Pra que essa mulher precisa de um diário? O que será que tem ali? Será que ela ainda me ama? Tem jeito não, nunca mais fico tranquilo...

- Então abre a porra do diário, cacete.

- Eu não. Vai que tem alguma coisa lá. Sevé! Traz mais uma.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

BEIJA-ME
















Deixa meus lábios
Entreabertos e ainda secos
Encostarem levemente nos teus

Fecha teus olhos
E me advinha os pensamentos
Enquanto tua língua aflita me procura

Exala a paixão
Que traz impregnada em teu ventre
E expira o que tua alma tenta em vão esconder

Contorna suavemente
Com tua língua os meus lábios
E me morde calmamente na certeza que sou teu

Sequestra minha língua
me sugando os sentidos
Paraliza esse instante
eternizando o meu amor

Tira do meu peito
O meu último suspiro
E inspira minha vida
Que ela é tua; por favor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

FOI ELA

Foi ela
Quem abusou da minha calma
Foi ela
Quem me ardeu o peito em chama
Foi ela
Quem entregou a minha alma
Foi ela
Quem acordou na minha cama

Com ela
Eu me perdi lá no início
Com ela
Passei a minha mocidade
Com ela
Cheguei à beira do abismo
Com ela
Eu voei sobre esta cidade

Por ela
Eu dei a volta pelo mundo
Por ela
É que eu paro de repente
Por ela
Eu percorri esse caminho
Por ela
Faria tudo novamente

Foi ela...
Laiaraia Laiaraiara
Foi ela...
Laiaraia Laiaraiara

domingo, 9 de agosto de 2009

A ETIQUETA



Noutro dia enquanto assistia um bom seriado americano desses com tiro, explosão, perseguição, no qual o detetive principal ao observar a metade de uma pegada parcial do calcanhar esquerdo do vilão descobre que o mesmo é canhoto, e por esse motivo o testamento do finado marido da jovem e voluptuosa morena só poderia ter sido falsificado pelo próprio pai da vítima que morrera dois anos antes em um duvidoso acidente automobilístico no qual ele teria sofrido um ataque cardíaco após ter sido envenenado pela linda e ruiva amante de sua esposa, ufa! Pois é, enquanto tentava me concentrar nesta trama tentando descobrir o culpado antes mesmo do final do episódio, me distrai por alguns instantes devido a uma conversa que vinha do banheiro, minha nipônica e dedicada esposa passando toda sua sabedoria oriental adiante, educando nossa linda e quase pré-adolescente filhinha, Nara.

- Narinha, calcinha a gente lava no chuveiro na hora do banho, nada de colocar roupa íntima para lavar que isso é muito pessoal, entendeu minha linda?

E nossa pretinha como sempre muito atenta e obediente fez sinal de positivo com a cabeça já esfregando a peça debaixo d’água.

Terminada esta conversa, e também o intervalo comercial que me permitiu desviar os olhos da tela, voltei à minha implacável busca do cruel assassino do senador Mc Cartney e de sua amante, que a esta altura já estava bem próximo de ser desmascarado. Após a resolução do mistério retornei meus pensamentos aos ensinamentos maternos proferidos anteriormente e percebi que de fato, o fato procedia.

Mesmo sendo colocadas no sexto de roupas sujas para serem posteriormente inseridas no turbilhão de água e espuma da máquina de lavar, minhas cuecas, sendo classificadas como minhas roupas íntimas, representam realmente as fronteiras e os limites da minha intimidade. E assim sendo não seria de bom gosto que outra pessoa, mesmo que fosse a nossa fiel escudeira de muitos anos, ficasse manuseando aquelas peças ali expostas, contorcidas e algumas até surradas pelos tempos idos que minhas intimidades viveram.

Depois desta breve reflexão me dirigi ao banheiro a fim de rever minhas peças para que pudesse lhes dar o merecido tratamento de próprio punho. Revirei o cesto resgatando aquelas recém usadas nos últimos dias e arregacei as mangas. Mas antes que pudesse iniciar minha nova função doméstica me surpreendi com algo nunca dantes reparado. A etiqueta.

Numa breve olhadela imaginei que seria simples dar sentido aqueles desenhos, porém, me atendo um pouco mais à tarefa, percebi que a atividade me tomaria um pouco mais de tempo, e me pus a identificar tais imagens. Passados uns três minutos cheios percebi que não havia chegado a nenhuma conclusão, mas como? Logo eu, perito em desvendar os mais emaranhados mistérios policiais, os insolúveis casos de investigação criminal, não conseguia agora decifrar aquela imagem, aquela evidência logo ali na minha frente. Que símbolos estranhos seriam aqueles? A quem aquela informação interessaria? A empreitada me exigiria um pouco mais de esforço e paciência. Tentei mudar a estratégia observado-os isoladamente.

Tinha um objeto cheio d’água que num primeiro momento imaginei ser uma bacia, mas como tinha o número 40 impresso bem no meio descartei esta primeira idéia e pensei, beleza, matei, deve ser lavada a no máximo 40 metros de profundidade. A outra, mais fácil ainda, um desenho óbvio de um ferro de passar indicando que esta atividade não deve ser executada. Já estava empolgado, com meu orgulho de renomado detetive forense renovado, quando me veio a próxima figura.

Um quadrado com os cantos arredondados e um traço horizontal no meio quase de uma extremidade a outra. Que seria aquilo? O botão da máquina de lavar, permitindo o uso do equipamento? Uma janela, indicando qual seria o melhor local para a secagem? Uma mesa de ping pong, alertando dos perigos de se jogar sem estar usando a peça em questão? Desisti e pulei para a próxima.

Um triângulo com um X bem no meio. Estava claro que alguma coisa era proibida. Mas o que seria? Não fazia a menor idéia, impossível! Pulei novamente e outra coisa proibida apareceu, agora era um círculo, que seja, triângulo e círculo estavam proibidos, que merda! E para completar também não podia círculo dentro de quadrado.

Muita coisa vetada. Essas coisas com certeza tinham relação com a tarefa que eu estava determinado a concluir. Fiquei meio cabreiro. E se eu estiver fazendo exatamente o contrario do permitido? Que trágico fim estaria reservado às minhas estimadas cuecas? Subitamente recolhi todas as peças e as atirei novamente no cesto, não sem antes lamentar a saudade dos tempos de outrora onde cueca de homem tinha somente a máscula inscrição 100% algodão.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

UMA PARTE DE MIM

Um pouco de mim
sempre volta
Um pouco de mim
só se afasta
Um pouco de mim
é derrota
portanto no fim
me desgasta

Um tanto de mim
vai à luta
Um tanto de mim
se encosta
Um tanto de mim
sempre surta
Este tanto é assim
nem se mostra

Um pedaço de mim
é passado
Um pedaço de mim
incerteza
Um pedaço de mim
é vontade
apetite, sei lá
sobremesa

Um bocado de mim
é desejo
Um bocado de mim
é paixão
Um bocado de mim
basta um beijo
Um bocado de mim
basta não

Tem muito de mim
que eu conheço
Outro tanto, porém
ignoro
Esta parte é o meu
próprio avesso
Mesmo alegre, às vezes
eu choro

terça-feira, 7 de julho de 2009

MINHA ETERNA NAMORADA

És o motivo e a razão
do meu peito à madrugada
arder descontrolado
como a nau desgovernada
que atingida por canhões
insiste incendiada

Muitas vezes indo em busca
de cumprir sua cruzada
de trazer de novo a rosa
que um dia foi roubada
o perfume da paixão
à deriva naufragada

Eu me lanço aos sete mares
com a calma abalada
sem estrelas por instinto
e uma vela já rasgada
um corsário sem bandeira
de missão desesperada

E navego com a certeza
que não volto aqui sem nada
que só volto com a flor
que me foi despetalada
Porque és amada minha
Minha eterna namorada

domingo, 5 de julho de 2009

NUNCA DESCOLORIRÁ



Quem me faz sorrir
Tem a minha cor
Tem cheiro de flor
Sabe me encantar

Sabe dar valor
Quando o samba é bom
Tem no coração
O dom de agradar

Sabe ser feliz
Sabe ser bem-vinda
Tem a minha linda
Tanta história pra contar

Conta o que sonhou
Que a princesa adormeceu
Diz que o rei sou eu
E o castelo é o nosso lar

Adora os livros seus
E escreve poesia
Jura que um dia
A formiga vai voltar

Gosta de TV
De teatro e de cinema
Inventa uma outra cena
E se veste pra dançar

Deita ao lado meu
Mas traz seu cobertor
Mesmo no calor
Vem me abraçar

Desenhou a minha vida
Pintando tanto amor
Com um lápis de cor
Que nunca descolorirá...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

CANTA UM SAMBA PRA MIM



Canta um samba pra mim

Corre e pega lá dentro o meu violão
Bate na palma da mão
Crava alegria no fundo do meu coração
Vê se aprende a falar
Diz que vai ficar bem

Canta um samba pra mim
Pega o cavaco e toca aquela canção
Aparece na televisão
Abre o armário de coisas da imaginação
Não deixa o tempo passar
Fica pra sempre neném

Canta um samba pra mim
Tira meus olhos molhados do fundo do mar
Vem me tirar pra dançar
Revira a minha vida de pernas pro ar
Depois se torna o meu chão
Me abraça e volta a dormir

Canta um samba pra mim
Cobra a minha presença com o teu olhar
Não deixa o tempo passar
Deita em meu colo e sonha que eu vou ficar
Que eu não sumo mais não
E só acorda depois que eu sair

Canta um samba pra mim
Diz que é mentira o tempo que eu não estive aí
Conta o que eu perdi
Rasga o meu peito e arranca o que eu já sofri
Socorre a minha emoção
Cantando um samba pra mim

terça-feira, 23 de junho de 2009

QUEM É AÍ QUE SABE



Quem é aí que sabe
do que eu estou falando
eu falo de um batuque
um modo de cantar
eu falo dessa roda
que está se formando
eu falo de um jeito
nosso de sambar

E sambo o ano inteiro
pra fevereiro me acabar
morena pega o pandeiro
me dá um beijinho
vem mais pra cá

Quem é aí que sabe
No que eu tô pensando
Eu pego a japonêga
E levo pro altar
Eu caso com ela agora
Se está duvidando
Eu dou três beijos nela
E volto pra sambar

E sambo o ano inteiro
pra fevereiro me acabar
morena traz teu pandeiro
nossos três filhos
vem cá sambar