quinta-feira, 2 de junho de 2011

O CHAPÉU


Normalmente eu tiro quinze minutos de almoço. Neste tempo está incluída a descida e a subida ao vigésimo primeiro andar, a caminhada ao restaurante, a escolha, a pesagem e o pagamento do prato. Quem me conhece sabe que eu como extremamente rápido e, durante a semana, onde minha média é de trezentos gramas de comida por dia, eu vôo. Pois bem, hoje resolvi demorar mais um pouco...

Fui ao Edifício Avenida Central comprar uma capa para o netbook da Eka. Após vinte minutos escolhendo a melhor entre tipos, tamanhos e preços, finalizei a operação e me dirigi ao self service de minha predileção.

Andando ainda pelo Largo da Carioca em direção à Sete de Setembro ouvi repentinamente um som de pandeiro e instantaneamente virei a cabeça em direção a uma rodinha que se formava em volta do batuque. A roda já era formada por três círculos mais ou menos concêntricos de pessoas. Tinha gente de todas as espécies, engravatados com maletas de laptop, turistas alemães com filmadoras, mendigos descalços com sacos pendurados nas costas, recepcionistas com aqueles uniformes padrões e gravatinha vermelha, alguns colegas aqui do escritório e um menino que no início dos anos noventa meu querido amigo Paulo Andel diria estar à frente do seu próprio tempo.

Todos observavam atentamente dois sujeitos baixinhos com sotaques interessantes trocando xingamentos e ofensas ao ritmo dos pandeiros. Quando um cantava o outro tocava e quando o outro revidava o primeiro é quem batia. Como eu estava sem pressa parei um pouco para apreciar. Ao longo dos impropérios gentilmente ofertados por ambos na maravilhosa cadência nordestina consegui identificar que um era alagoano e o outro era paraibano. E após uns dez minutos de revelações sexuais sobre os pais, irmãos, tios, avós e até a cabra de um deles, para delírio geral da galera, comprei o CD e fui almoçar.

Na volta passei pelo pequeno shopping a céu aberto que abrange quase toda a extensão do Largo e parei em frente a uma barraca de chapéus. Sempre gostei desses adereços de cabeça desde bonés até os estilos cowboy e gangster. E aqueles do tipo malandro carioca sambista da década de cinqüenta nem se fala; mas não é qualquer um que me serve. Devido ao pequeno tamanho da minha cabeça e à escassez de pelos capilares eles tendem a escorregar diretamente para o meio do meu rosto quase cobrindo completamente os meus olhos. Fiquei uns cinco minutos experimentando os diversos modelos até que achei um que gostei e que coube na minha circunferência craniana.

Entreguei o dinheiro ao moço dos chapéus e sem tirar o novo presente da cabeça voltei todo orgulhoso mirando meu reflexo nas janelas dos automóveis e nas portas de vidro dos prédios que estavam no caminho. Faltando apenas um edifício por passar antes de alcançar a minha portaria percebi que o meu chefe conversava com o chefe dele a poucos metros de distância e que ele também havia me observado, ou seja, houve aquele pequeno contato visual do qual não se dá mais para fingir que não havíamos nos visto.

Homem que sou, mesmo sabendo que demorei quase uma hora e meia na rua, fui em direção aos dois e os cumprimentei, afinal de contas tenho crédito na casa por conta dos outros dias nos quais apenas engulo a comida. Meu chefe fez um sinal simpático com a cabeça e me relembrou da reunião que temos amanhã. Eu retribuí o cumprimento e confirmei a sua observação. – ok, às nove. - Isso tudo quase sem chegar a parar completamente, e quando já recuperava minha velocidade normal de caminhada, antes de me afastar dois ou três passos, ouvi seu comentário num tom de voz um pouco mais alto que o anterior. – Gostei do estilo com esse chapéu, hein?!

E sorrimos em direções opostas.

8 comentários:

Pererek disse...

Já o fiz por email!!!

Anônimo disse...

Eu achava que eu era o único malandro que tinha um chapéu desse, meu genro alemão me deu um desse tipo
em março, e disse que era a ultima moda lá. Agora podemos tirar uma onda quando estivermos juntos. Até nisso a gente tá combinando!!!!!!

Pererek

Nelson Borges disse...

Com o chapéu e a camisa "sou profissional".

bçs

Anônimo disse...

tava com saudades.

Deise

Nelson Borges disse...

Eu também, faltava tempo.

Junior de Oliveira disse...

fala querido nelson, saudades meu irmão!blog maravilhoso! parabéns!
estamos juntos, estou com esse cel aqui me liga pra gente marcar as aulas para o seu filho...
8119-0548 abraços!

Nara Camara disse...

Pai, você é D+++++++++++!

Djabal disse...

Não dê um chapéu para quem não sabe andar. É isso, parabéns.