terça-feira, 3 de agosto de 2010

PÃO, LEITE E MORTADELA

Quando Álvaro despertou realmente, já estava passando em frente à casa de Dona Jacinta, que ficava seis casas após a sua descendo a Rua Lopes Ferreira. Mesmo sem levantar a cabeça reconheceu o lugar pelos buracos na calçada. Estava acostumado a ficar ali esperando a boa senhora trazer o seu carretel de linha dez. Dona Jacinta também vendia pipa e cerol para ajudar com o orçamento familiar.

Por falar nisso, assim que vovó me der aquele cruzeiro que me prometeu vou comprar uma linha nova, pois a minha já está toda puída. Perdi três pipas em menos de vinte minutos e todas para o Fabinho, pudera, a linha daquela lata já foi atropelada por caminhão de leite, já caiu em poça de lama e já foi “batizada” por xixi de cachorro.

Parou de repente os seus pensamentos de pipa e linha ao cruzar a fronteira daquela nova calçada. Um cimento novinho, com declínio acentuado para facilitar a entrada do carro do Seu Irineu. Apressou instantaneamente os passos e baixou ainda mais o olhar, chegando a visualizar apenas o raio que ia do calcanhar ao dedão do seu pé.  Os meninos haviam aprontado com a roseira do Irineu, e ele tinha quase certeza que o velho queria pegá-lo, uma vez que a ideia de jogar linha de passe em frente à garagem tinha sido dele.

Mas o que é que eu posso fazer? Aquela garagem tem o formato certinho de um gol. Não é minha culpa se tem uns pernas de pau que toda hora acertam o diacho da roseira. Aliás, quando eu voltar da escola tenho que recolher o dinheiro da turma para comprar uma dente de leite nova, pois no último chute do Tuninho o Seu Irineu acordou e partiu a bola ao meio.

Perdido nestes pensamentos de bola e de gol reparou que o seu corpo havia involuntariamente diminuído o ritmo da caminhada, como se soubesse o que estava por vir. E sabia. Alvinho estava se aproximando da calçada de Vanessa. A jovem menina era o seu sonho. Ele torcia por um olhar, daria tudo por um sorriso e tinha certeza de que teria um treco se ela viesse lhe falar. Seu coraçãozinho explodiria de tanto se arremessar contra a caixa do peito. E ao sentir o ritmo lento dos passos e o acelerado do coração levantou subitamente a cabeça.

Já saíram. O fusquinha vermelho da Dona Ângela não está mais na garagem e a Pretinha já está com água e comida nova nas tigelas. Quem sabe não a encontro na volta? Quem sabe a Pretinha não foge quando ela for abrir o portão da garagem e dá um pinote para o meio da rua indo direto contra o pára-choque do caminhão de gás? E eu, num impulso de coragem, sem pensar na própria vida, me atiro num salto de dez metros, abraço a Pretinha e saio rolando com ela pela outra calçada a salvando do seu triste infortúnio. Conquistando para todo o sempre a gratidão, a confiança e o amor da criatura mais linda que Deus já colocou na face da Terra.

Assim ia nosso herói sonhando com a Vanessa e com a Pretinha quando se deu conta que já estava na frente da padaria, o segundo momento mais importante de todo o percurso. Apesar de já estar indo à escola sozinho desde o início do ano passado, era sempre um momento de atenção, e de angústia, por que não dizer? Havia chegado a hora de atravessar a Rua Caxambu para poder entrar na Carolina Amado, a rua da escola. Morando no subúrbio do Rio de Janeiro, em Vaz Lobo e no início dos anos oitenta, só precisávamos nos preocupar com alguns poucos carros dos próprios moradores e com uma ou duas linhas de ônibus no máximo e, para Alvinho, o terror era o 781 indo e o 782 voltando. Ambos passando em alta velocidade naquele cruzamento mortal que quase havia levado para o Céu o seu amigo Cleber, o cromado.

Mas que ideia também a do Cromado de querer descer a ladeira da Caxambu sem freio. Sorte que não vinha carro nenhum e que o sinal estava aberto para ele. Passou feito um foguete pelo cruzamento. Seu José, que estava tomando uma cachacinha bem na hora do episódio, falou que se tivesse sido um minuto depois teria dado de frente com o 782, e um minuto antes teria jogado o Seu Antenor para o alto com as compras e tudo mais. Esse Cleber tem muita sorte mesmo. Pena que não conseguiu fazer a curva naquela velocidade e acabou se espatifando contra o poste do outro lado da calçada. O guidão da bicicleta virou de encontro à sua barriga e fez um rasgo enorme. Seu José, já meio mamado a essa altura, disse que chegou a ver as tripas para fora. Levou vinte e sete pontos e teve de ficar mais de um mês sem ir à aula. Muita sorte...

Foi pensando nas tripas, nos pontos e na sorte do Cromado que Alvinho desceu toda a rua chegando finalmente à escola. Parou bem em frente ao portão e não viu o Seu Antônio, porteiro que recolhia e organizava nos escaninhos as cadernetas da garotada. Na verdade não viu criança alguma chegando e ao olhar mais de perto percebeu que o portão estava trancado com cadeado. Olhou para a sua mão direita e viu uma nota de um barão toda amassada. Reparou que estava de chinelos, sem a mochila e ainda com o short do pijama. E ao lembrar que era sábado, num estalo dentro da sua cabeça, ouviu a voz firme e imperativa de sua mãe. Garoto, vê se não esquece! Uma bisnaga, um litro de leite e trezentos gramas de mortadela!

6 comentários:

Anônimo disse...

sempre é muito bom ler seus textos,cunhado. Parabéns pela história. bjs da Tata

Nelson Borges disse...

Valeu cunhada,
adorei a visita.

Saudades de todos...

beijos

Anônimo disse...

Essa foi SENSACIONAL!!!!

Abração.

Vini

Elika Takimoto disse...

Olha, Nelso, vc é um metido e um abusado.

Narrando em terceira, em primeira pessoa...Kenzaburando, Lispectorando...ainda bem que você é bom nisso. Uma pena que faça pouco.

Alvinho, Nelsinho...tudo igual! A mim, você não engana.

Excelente auto-biografia!

´Dorei!

Nara teve a quem puxar em seus devaneios.

Parabéns, meu amor.

Em breve receberá muitos beijinhos por isso.

cesar disse...

Sensacional...esse foi um dos melhores!!! beleza !!

Nelson Borges disse...

Valeu Cesar!

E o pior é que é quase tudo verdade,

Abraços