quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

MENINOS E MENINAS


Imagem do Filme Little Manhattan


João Pedro estava lidando com um dos maiores e mais complicados problemas que uma pessoa pode passar nesta vida. A proximidade do dia em que teria que dar o seu primeiro beijo. Apesar de não estar ainda totalmente certo de que era isso o que realmente queria, já sentia a pressão da terrível e cruel sociedade da qual pertencia, a dos meninos de treze anos.

Joãozinho ainda lembrava com riqueza de detalhes da época de portão, aquele tempo em que a criança ainda tem de brincar nas imediações de sua casa. Tempo bom, tempo das brincadeiras de roda, da amarelinha, de pular corda, da queimada ainda tímida e na calçada. Alí ele conhecera Ana Paula. Vizinhos de muro e tendo as mães como cúmplices dessa arquitetônica tramóia que o destino um dia iria traçar, os dois compartilhavam brinquedos e jogos, lições e trabalhos escolares e até a tutela da mãe alheia. Eles já tinham um bom entrosamento e tirando aqueles desentendimentos característicos da infância podemos dizer que eram bons amigos.

Ao se passarem mais dois ou três aniversários nosso protagonista ganhou a confiança dos pais e a rua, agora ele já podia participar de outras brincadeiras, pique bandeira, garrafão, polícia e ladrão e mais um monte delas que necessitavam de uma certa autonomia que o restrito raio de visão do portão não permitia anteriormente. Já sabendo atravessar com cautela e prudência tinha permissão para voltar sozinho da escola e passava correndo todo orgulhoso por Aninha, sem dar muita atenção ou confiança, enquanto a antiga amiga ainda esperava pacientemente sua mãe lhe buscar.

Essa fase durou mais uns dois anos e continuaria eternamente para JP se Marcelo não tivesse convidado a Carolina para ir ao cinema, ou se pelo menos tivesse ficado calado, mas não, ele foi contar logo para o Alfredo que, com a proximidade da festa de quinze anos da Maria Clara, começou a arquitetar.

- Marcelo, você já está namorando a Carolina. O pai do Carlinhos trabalha com o pai da Clarinha e como ele não está aqui para reclamar então também já tá formado, eu fico com a prima linda e maravilhosa da Maria Clara e o João Pedro fica com a Aninha que eles já têm essa ligação antiga.

- Caraca! Ligação antiga? A gente era criança e agora que ela está em outra turma nem deve se lembrar mais de mim.

- Então tá mané, você vai ser o único sozinho. Tá com medo ou tu não gosta de mulher? Agora vamos dividir logo o time que a aula já tá quase acabando.

João ficou o resto da semana pensando na festa. Pensou até em não ir, daria uma desculpa qualquer, ficaria doente, com febre, mas estava complicado demais, a mãe e o pai já tinham até alugado a roupa, o negócio ía ser bom mesmo, afinal de contas era a festa de quinze anos da Maria Clara, a Clarinha, e ele sabia que não podia perder.

O jeito era traçar uma estratégia.

Oi Aninha, quanto tempo. Quer dançar?
Não, assim não. Tá ruim demais.
Oi Ana Paula, lembra de mim?
Claro que lembra idiota, você é vizinho dela. Ah! Horrível!
É melhor eu chegar perto e deixar que ela fale alguma coisa. Isso!
E a dança? E o beijo? Caraca!
Isso não vai dar certo...
E foi desta maneira que o nosso aflito amigo adormeceu nos dias que antecederam a grande festa, com pensamentos que variavam rapidamente do prenúncio do caos ao dia mais feliz da sua pré-adolescência.

E esse dia chegou.

João Pedro ficou controlando o horário dos pais, pois ele queria ser um dos primeiros a chegar, ou pelo menos chegar antes de Ana Paula. Estava impecável com seu terno azul marinho alugado, gravata e tudo mais, cabelo penteado e repartido de lado. Não demorou muito para que chegassem Marcelo e Carolina, já de mãos dadas, fizeram com que João tivesse um bom pressentimento sobre aquela noite. Alfredo chegou logo em seguida e como veio sozinho ficou na mesma mesa que João. Os outros convidados foram chegando lentamente e com a casa de festas totalmente lotada os dois meninos resolveram dar uma volta na área e se separaram.

Quando João se aproximou da entrada do salão suas pernas pararam, as mãos começaram a suar e seu corpo todo gelou. Era Ana Paula que acabara de chegar, mas não era a Aninha que ele conhecia da rua, do uniforme escolar, das brigas e brincadeiras de infância. Era uma outra pessoa. Aninha havia se transformado em uma mulher. Se não na idade com certeza nas formas que aquele maravilhoso vestido vermelho envolvia. Só que antes que João pudesse ao menos respirar, o irmão mais velho da aniversariante abraça Aninha e lhe beija suavemente. João quase perdeu o controle das pernas. Aquele beijo não era daquele cara, um garoto de dezessete anos que já cursava o pré-vestibular, era o beijo que João havia sonhado e imaginado diversas vezes nesta última semana, quem sabe, inconscientemente, nos últimos anos.

E assim nosso desolado amigo sentiu uma dor no peito que jamais sentira anteriormente. Era uma dor aguda de dentro para fora, parecia que o peito não ía conseguir suportar o coração que batia ali dentro. Parecia que haviam retirado o chão debaixo de João, e neste momento, sem pedir permissão, uma lágrima deslizou de sua face. João ainda ficou andando a esmo pelo estacionamento perdido em seus sentimentos por mais algum tempo até que resolveu voltar para a festa. Lá chegando ele vê Marcelo e Alfredo juntos em uma mesa no canto do salão.

- O que houve?
- O Marcelo brigou com a Carol porque ela dançou com o filho do Seu Genaro.
- E a prima da Clarinha?
- Se mudou para Minas e não pôde vir.
- Caraca deu tudo errado.
- É, a gente já viu a Aninha com aquele sujeito.

João dá um leve suspiro.

- Bom, vamos dormir que afinal de contas amanhã temos jogo-contra e é isso o que importa.
- É isso mesmo!

E os três se levantam e antes de se despedirem alguém lembra.

- E o Carlinhos? Alguém o viu por aí?
- Eu encontrei com pai dele, disse que o cara teve uma febre repentina, mas tenho certeza que vamos poder contar com o nosso artilheiro amanhã.

Um comentário:

Bruno disse...

Fantástico, o modo que a história desenvolve-se nos prende e quando acaba fica um vazio pois, já nos tornamos íntimos desses personagens mesmo com apenas uma história daquelas crianças que, pelo menos me fez lembrar o meu tempo de criança. Parabéns nélson espero o próximo.